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1878, 15 de fevereiro, sexta-feira. Belém
do Pará viveu um dia de grande emoção.
A emoção da abertura do Theatro
de Nossa Senhora da Paz pela companhia do
ator pernambucano Vicente Pontes de Oliveira
com o drama As duas órfãs, do
escritor francês A. D´Ennery.
Desempenho a cargo de Manuela Lucci, Emília
Câmara, Maria Bahia, Vicente Pontes
de Oliveira, Joaquim Infante da Câmara,
Xisto Bahia, Júlio Xavier de Oliveira,
também ensaiador.
A
primeira temporada de arte foi interrompida
logo em seguida para dar lugar a um espetáculo
insólito. O teatro foi especialmente
preparado para os bailes carnavalescos.
Palco e platéia transformaram-se
num vasto salão caprichosamente e
elegantemente decorado. No dia 24, domingo,
deu-se o primeiro baile das máscaras.
O jornal católico A Boa Nova, editado
pelo bispado, manifestou estranheza.
Como
os bailes atendiam aos interesses da nossa
bisonha aristocracia e burguesia, que muito
estimavam os costumes da " corte"
como das " metrópoles"
européias, os bailes foram considerados
indispensáveis e aconteceram animados
durante o tríduo momesco, 3, 4 e
5 de março. Para evitar constrangimentos,
deliberou o Conselho do Conservatório
Dramático Paraense sugerir ao Presidente
da Província a substituição
do nome respeitoso Theatro Nossa Senhora
da Paz para Theatro da Paz.
A
sugestão foi acatada. E o bispo Dom
Antônio de Macedo Costa, que não
vira com bons olhos o nome de Nossa Senhora
ostentado na fachada do templo pagão,
no qual tudo podia acontecer, deu-se por
satisfeito.
Os espetáculos da Companhia Vicente
Pontes de Oliveira recomeçaram na
quinta-feira, 7 de março. A primeira
temporada de arte durou até dezembro
e apresentou nada menos de 126 récitas.
Merece consideração essa temporada
porque as principais figuras eram velhos
companheiros de Vicente Pontes de Oliveira
que há muito explorava as artes cênicas
no Pará. Entre elas duas glórias
brasileiras: Xisto Bahia e Manuela Lucci.
E havia uma paraense: Eugênica Câmara,
casada com o ator português Joaquim
Infante de Câmara, célebre
atriz, que fora namorada do poeta Castro
Alves.
O
Teatro viveu vida gloriosa nos tempos áureos
da borracha, vida medíocre nos tempos
das vacas magras. Somando tudo, agora temos
para festejar 125 anos. Escrever a história
desse templo é tarefa de Hércules.
Exaustivo falar dos espetáculos,
incontáveis, variados, todos os gêneros
possíveis e imagináveis -
até colação de grau
e convenções políticas
- mobilizando gente de toda parte, nobres
e plebeus.
Uma
pessoa especial, porém, se identifica
com esta casa - o maestro Waldemar Henrique
da Costa Pereira. Nasceu ele exatamente
no dia 15 de fevereiro de 1905, quando completou
28 anos. Neste dia do primeiro vagido de
Waldemar Henrique não houve espetáculo.
O teatro estava fechado para obras externas
e internas, que lhe deram o aspecto atual.
A
casa voltaria a funcionar normalmente a
partir do dia 03 de maio de 1905, solene
reabertura e estréia da Companhia
Lírica Italiana, de Donato Rotolli,
com a ópera Tosca, pela primeira
vez executada no Pará. A Companhia
procedia do Rio de Janeiro, tendo atuado
antes em São Paulo. Era empresariada
pelo maestro brasileiro Dr. Assis Pacheco.
Novo
período de atividades se estendeu
a partir desse momento e durou pouco, atropelado
pela quebra da borracha por volta de 1910.
No meio da crise, 1918, esta casa viveu
outro momento de raro esplendor: a temporada
da companhia de balé de Anna Pávlova.
A célebre bailarina deixou marcas
profundas, e duas meninas paraenses se transformaram
em " estrelas" do balé
clássico no Rio de Janeiro: Naruna
Jordan e Bela Yara. E o balé baixou
ao nível das "pastorinhas",
adotado por grupos mais sofisticados, o
Filhas de Japhet e o Belemitas, neste despontando
outro talento que cedo feneceu, Natércia
Mendonça.
Waldemar
Henrique viveu, por sua vez, a primeira
emoção artística indo
assistir aos espetáculos de Anna
Pávlova no Theatro da Paz. Era menino
e ficou deslumbrado. Em 1920 já compunha.
Em 1923-4 divulgou as primeiras peças
para canto e piano. Em 1934, com boa bagagem
e estilo definido, que refletia a identidade
amazônica, resolveu com sua irmã
Mara desembocar no Rio de Janeiro para viver
longa experiência artística.
Vitorioso, ganhou também aplauso
internacional. Ele e Mara foram " embaixadores
da canção brasileira",
com o patrocínio do Itamaraty.
Em
1958, a convite de Benedito e Maria Sylvia
Nunes, corpo e alma do Norte Teatro-Escola,
escreveu música para o poema Morte
e Vida Severina, de João Cabral de
Melo Neto, apresentado no 1º Festival
Nacional de Teatro de Estudantes, aplaudido
e premiado com medalha de bronze.
As
raízes paraenses o chamaram de volta.
Em 1962 foi contratado pela UFPa para prestar
colaboração ao Coral Ettore
Bosio. Mas o retorno definitivo só
aconteceu em 1965, para assumir o cargo
de diretor do Departamento de Cultura da
SEDEC - Secretaria de Estado de Educação
e Cultura -, e depois diretor do Theatro
da Paz, por ato de 12 de novembro do mesmo
ano. A partir de então, durante 15
anos, o maestro comemorou duplo aniversário:
o dele e o do Teatro. Dirigiu esta casa
com tanto empenho que nela chegou a residir.
Um dentro do outro. Fez da casa de dramas
e óperas mais que um ato de presença
cultural. Chegou a gastar de seu bolso para
a manutenção da vida do Theatro,
contigências da burocracia por vezes
perversa.
Aqui
se encontrava atento a todos os movimentos
de uma reforma projetada para festejar o
centenário do Theatro. A festa custou-lhe
amarga decepção: ao se descerrar
a placa comemorativa, faltava um nome -
o do diretor em exercício, Waldemar
Henrique. Ele, humilde, sufocou insólito
vagido. Todos comentaram e a imprensa não
perdoou o esquecimento. O fato ecoou mundo
afora. Ocupa capítulo do livro de
José Cláver Filho, Waldemar
Henrique - O canto da Amazônia, livro
que reparou esta e outras injustiças.
Waldemar
Henrique identificou-se definitivamente
com esta casa. O vínculo vai além
dos pequenos episódios. Não
é possível esquecê-los,
porém. Todos eles compõem
o maravilhoso espetáculo da vida.
Ocupam Tempo e Gente.
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