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História artística do Theatro
da Paz vai de Carlos Gomes a Ballet Kirov,
passando por intérpretes e compositores
paraenses do mais alto gabarito.
Já
era tempo de a Província do Grão-Pará
ter uma casa de espetáculos. Porque
o Teatro Providência, que recebera
tantas companhias itinerantes e acolhera
um público ansioso por diversão
- o velho Providência, em 1872, ardera
quase todo em chamas.
Recomposto
superficial e sumariamente, o teatrinho
Providência ainda por vários
anos receberia troupes de fora e grupos
locais, sendo ali como que a germinação
de um futuro teatro paraense, apresentando
o colorido de grupos pastoris, recitais
de poesias, concertos do clubes Mazart,
Verdi e Sociedades Musicais, enquanto a
lenta burocracia não entregava ao
povo o novo Theatro Nossa Senhora da Paz.
Os
espectadores, que eram os cidadãos
mais abastados da Província, nas
noites de espetáculo acorriam ao
pequeno prédio de madeira, levando
seus criados, uns a clarear as ruas do percurso
com archotes, outros a carregar cadeiras
e bilhas com água para que seus senhores
pudessem aplaudir o que iria acontecer no
palco tosco, á luz de lampiões
de óleo de andiroba. A lágrima
e riso se alternavam nos dramas e farsas,
juntamente com o boquiaberto espanto ante
a representações circenses
de contorcionismo de malabaristas e truques
de engole-fogo. As óperas Trovador,
Rigoletto, Macbeth de Verdi e Barbeiro de
Servilhai de Rossini eram apresentadas de
maneira adaptadas às condições
da casa. Essa era o menu que o Teatro Providência
apresentava, sacudindo a quietude de uma
população ainda sem gosto
artístico definido.
15
de Fevereiro de 1878. Noite de gala. Inauguração
do Theatro Nossa Senhora da Paz, de pois
Theatro da Paz. A festa de abertura foi
montada pelo empresário pernambucano
Vicente Pontes de Oliveira, contratado pelo
governo municipal para exercer, durante
um ano, a direção dos espetáculos
no teatro a ser entregue aos paraenses.
O maestro maranhense Francisco Libânio
Colás, incumbido de organizar uma
grande orquestra para tocar nessa noite,
arregimentou músicos de quatro bandas
para o evento no novo espaço. A peça
de estréia foi o drama de A. D'Ennery,
As sociedades como a Phil'Euterpe, Lyra
Paraense de Santa Cecília e o conservatório
Dramático Paraense já movimentavam
o perfil artístico da Província.
A sociedade estava sendo progressivamente
preparada para realizar os seus momentos
de arte com pessoas da terra. Durante dois
anos o público continuaria a ver
nesse teatro, grupos membembes com apresentações
de cunho farsesco e dramas de conteúdo
lacrimoso.
Na verdade a acústica excelente,
o interior luxuoso, a arquitetura original
que introduzia o prédio logo ao nível
da rua, sem intervenção de
escadaria externa, davam ao teatro um encanto
todo próprio e a sociedade começava
a entender que o novo ambiente deveria transmitir
muito mais do que dramas de gosto incerto
e bailes de carnaval.
Em
1880 chega a Belém a Companhia Lírica
Italiana de Tomas Passini. Apresentou Ernani,
de Verdi. Trazia como regente da orquestra
o maestro Enrico Bernardi, largamente conhecido
nos palcos europeus.
Nesse
mesmo ano O Guarani teve sua estréia
no Teatro da Paz, com regência de
Enrico Bernardi. Era a primeira ópera
de autor brasileiro com assunto nacional.
Delírio na platéia, mesmo
que Carlos Gomes não estivesse presente.
No ano seguinte em 1881, o público
aplaude Henrique Gurjão na estréia
de sua Idália, primeira ópera
de compositor paraense, sob regência
do maestro Cimini. Foi uma verdadeira consagração.
Em
1882 ouve-se novamente a música de
Carlos Gomes no Teatro da Paz, desta ves
com a presença do Maestro campineiro.
A ópera é Salvador Rosa, regida
por Enrico Bernardi. É conhecida
a grandiosa homenagem que o Pará
prestou ao genial compositor. Flores, fitas
com o nome do maestro em fios de ouro, marche
flambeaux, poesias, cobertura intensa dos
jornais, homenagem dos músicos e
poetas locais, ovações prendendo
ao palco o vitorioso compositor de O Guarani.
Em
1890 José Cândido da Gama Malcher
estréia no Theatro da Paz sua ópera
Bug Jargal e em 1891 Ettore Bosio leva a
cena O Duque de Vizeu. Helena e Ulysses
Nobre apresentam-se nesse palco, em 1906.
Ela canta Mia Picirella, da ópera
Salvador Rosa.
Em 1908 houve o fechamento do Instituto
Carlos Gomes. É então que
João Pereira de Castro, José
Domingues Brandão, Cincinato Ferreira
de Souza e Ettore Bosio agrupam professores
e alunos, passando à história
como os reorganizadores do Instituto. Maria
Helena Coelho Cardoso, aluna dessa segunda
fase viria a ser uma das glórias
do canto lírico no Pará, com
belas exibições nessa casa
de espetáculos.
Em 1917 a platéia aplaude o músico
Alípio Cesar, da cidade de Cametá.
É a estréia de sua ópera
Notte Bizarra, talvez a única ópera
cômica de autor paraense.
Pelo palco de Theatro da Paz haveriam de
passar grandes nomes de artes, além
dos já citados, como Anna Pavlova,
Bidu Sayão, Tito Schipa, Beniamino
Gigli, Waldemar Henrique, Guiomar Novaes,
Tamara Taumonova, Procópio Ferreira,
Cacilda Becker, Margarida Lopes de Almeida,
Renato Vianna, Henritte Morineau, Natalia
Thimberg, Bibi Ferreira, Paulo Autran, Fernanda
Montenegro, Glauce Rocha, Maria Della Costa,
Tonia Carrero, Francisco Mignoni, Oriano
de Almeida, Arthur Moreira Lima, Nelson
Freire, Arnaldo Cohen, Miguel Proença,
Maria Lucia Godoy, Leila Guimarães,
Lenice Priolli, Victoria Kerbauy, corpo
de baile do Teatro Municipal do Rio de Janeiro,
Ballet Kirov, Les Etoilles de I'Opera de
Paris, Ballet Stagium. Impossível
e até entediante a enumeração
completa dos artistas que aqui se apresentaram
ao longo de 124 anos, daí porque,
muitos deles não constam deste artigo.
Refletir na presença do Theatro da
Paz e no que ele representa para os paraenses,
apenas vislumbrando o brilho de importantes,
porém esporádicas figuras
que por seu palco passaram, seria fazer
uma leitura tanto mais direta quanto mais
incompleta do muito que artistas tiveram
e têm oferecido, sob as luzes mágicas
dos refletores.
Ressaltem-se intérpretes que imortalizaram
nesta casa as composições
de Altino Pimenta, Waldemar Henrique, Jayme
Ovalle, Paulino Chaves, Meneleu Campos,
Raymundo Pinheiro, Tó Teixeira, Wilson
Fonseca. Vozes paraenses, na tradição
do canto lírico como Maria Helena
Coellho Cardoso, Adelermo Matos, Marina
Monarcha, Alpha Oliveira, Márcia
Aliverti, Adriana Queiroz, João Augusto
Ó de Almeida, Reginaldo Pinheiro.
Como não se lembrar das grandes concentrações
de orfeões regidos por Margarida
Schiwazappa, Maria Luzia Vella Alves, Maria
Araújo Figueiredo; das regências
marcantes de Nivaldo Santiago, João
Bosco da Silva Castro e Silvério
Maia? Isso sem falar na atuação
da Fundação Carlos Gomes,
como o seu Festival Internacional de Música
do Pará, que atrai jovens para o
nosso teatro; e da Escola de Música
da UFPA, que promove o Encontro de Arte.
Também é importante registrar
o surgimento da Orquestra sinfônica
do Theatro da Paz, atualmente regida pelo
maestro Barry Ford, cujo contingente de
músicos é formado quase integralmente
por paraenses.
As efemérides em torno da figura
fundamental de Carlos Gomes jamais passaram
em branco na programação do
teatro. Em 1986, no sesquicentenário
de nascimento do compositor, a então
Secretaria de Cultura, Desportos e Turismo
do Pará e a Secretaria de Cultura
de São Paulo trouxeram a Belém
uma montagem de O Guarani, com Niza de Castro
Tank como Ceci e Benito Juarez na regência.
Dez anos mais tarde no centenário
da morte de Carlos Gomes, a Secretaria de
Estado da Cultura do Pará homenagearia
novamente o compositor, com o espetáculo
100 Anos de Saudade, que apresentou obras
raras e inéditas.
Num cenário mais recente, nosso teatro
tem assistido aos arranjos e composições
de Paulo André Barata, Luiz Pardal,
Tinoco, Salomão Habib e Serguei Firsanov,
em uma visão moderna de peças
de Waldemar Henrique. Outro espetáculo
marcante foi a montagem de Fosca, com Gail
Gilmore e a National Opera Sofia sob regência
do maestro Luiz Fernando Malheiro.
Tal como uma viagem a um lugar muito rico
de belezas e informações,
de cujo manancial não conseguimos
nos apropriar, assim é o nosso passeio
pelos espetáculos de arte que o Theatro
da Paz nos tem oferecido. Como na viagem,
ficarão sempre muitas coisas que
se viu e das quais nem é possível
falar. E temos vontade de voltar, de ver
e ouvir de novo, num eterno recomeço.
Referências
Bibliográficas
RIBEIRO, De Campos. Gostosa Belém
de Outrora... Belém, imprensa Univ.
do Pará, 1966.
SALLES,
Vicente. A música e o tempo no Grão
Pará. Belém: Cons. Est. de
Cultura, 1980
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Música e musicos do Pará.
Belém: Cons. Est. de Cultura, 1970
Nota:
Com as obras do Theatro da Paz, não
pudemos consultar livros e programas foram-nos,
entretanto, de grande valor os informes
encaminhados pelo jornalista Edwaldo Martins,
Diretor do Theatro da Paz.
Maria
Lenora Menezes de Brito é professora
da Escola de Música da Universidade
Federal do Pará e componente do Duo
Pianístico da UFPA.
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